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sexta-feira, 30 de setembro de 2011


MINI TEXTO PARA TEATRO

"UM ADRO AZUL PARA DEUS"


NARRADOR: E como uma adaga cravada no coração de Macaíba, na bacia dessa maravilhosa cidade, centenária, pulsante e feliz, é que foi construída com muita luta e dedicação essa imponente matriz, que veio coroar toda uma fé de um povo devoto, sofrido e talentoso, de filhos abençoados pela luz divina, pela luz do Criador, pelo seu filho Jesus Cristo e por sua sagrada Mãe que é pureza e amor, eternizado nessa cidade por essa majestosa construção; a Igreja de Nossa Senhora da Conceição! E salve a mais pura das puras, a virgem santíssima, a mãe piedosa! Salve Maria!


ZEJIPE: Céus! Vejam como a igreja é luz e anjos! Nunca em toda a minha vida eu tinha visto a matriz tão iluminada e enfeitada de anjinhos como agora. Ta linda! Louvado seja o nosso senhor Jesus cristo!


MARIA CABRAL: Para sempre seja louvado! O que ta acontecendo na matriz que ninguém me avisou? E já é natal?


ZEJIPE: Somos nós que estamos tendo uma visão celestial! Acho que ta chegando a nossa hora e Deus mandou nos buscar em sua carruagem de luz.


MARIZ CABRAL: Para tudo que eu quero descer!


ZEJIPE: É Deus, sua doida!


MARIA CABRAL: Eu sou Maria Cabral, muito prazer! Macaibense de nascença e banhada com as águas da raiz. Sou muito nova pra morrer. Se você ta querendo ir; adeus, mas eu ainda tenho muito para acontecer. Essa cidade ainda vai crescer muito, muitas coisas ainda irão acontecer, coisas que até Deus duvida e nada disso eu quero perder. Se você já está indo, entregando os pontos, então para tudo que eu quero descer!


ZEJIPE: E tu pensas que eu também vou por livre e espontânea vontade? Mas se ele ta chamando, nós não podemos fazer desfeita. Vamos embora com o rabinho entre as pernas e contando os pecados para prestar conta a São Pedro lá no portão celestial.


MARIA CABRAL: Tudo bem. Indignada mas eu vou, porém, antes eu tenho uma grande revelação a fazer.


ZEJIPE: Revelação? Numa hora dessas tu ainda quer fazer revelação? Quem és tu pra fazer alguma revelação e alguém se interessar? E deus tem muito mais o que fazer do que ta parando pra te escutar. Apressa o passo que o Homem é muito ocupado.


MARIA CABRAL: Ele espera que eu sei.


ZEJIPE: Maria, Num afronte o Homem! Desculpa meus anjinhos a Maria Cabral, pois ela não está dizendo por mal e deixa-a fazer essa revelação se for de importância pára a sua salvação. Não levem essa doida em consideração.


NARRADOR: E naquele momento a igreja se fechou, guardando os anjos luzes e canções, deixando somente um foco de luz em uma pobre coitada que na calçada com os seus dois filhos mendigava.


ZEJIPE: Danou-se! Parece que Deus fechou as portas do céu em nossa cara? E nessa sua revelação, nós vamos ficar no escuro, é Maria Cabral?


MARIA CABRAL: E num é minha a revelação?


ZEJIPE: Deus vai nos castigar, Maria.


MARIA CABRAL: José, Deus é pai e não padrasto. Preste atenção que a minha revelação vai começar:






PEDINTE: Minha mãe misericordiosa, hoje me encontras aqui, na frente da nossa igreja, no mês da sua festa, rogando a vossa piedade e clemência, para essa mãe que vos fala, de uma mãe para outra mãe que já soube o que foi sofrer por seu filho, e nesse momento com o coração cheio de lágrimas, pedindo, implorando a vossa ajuda, que através de vossa intercessão toque no coração de um vivente dessa cidade para que tenha piedade não só de mim, mas dessas duas crianças frágeis e indefesas que não tem culpa de está aqui nesse mundo passando tanta fome, tanta privacidade. Bem sabes como sou doente e incapacitada de trabalhar e é por isso que aqui estou a pedir. Filha de Isabel, esposa de José, escolhida de Deus, é um coração de uma mãe desesperada que roga.


FILHO: Mãe ta vindo gente!


FILHA: Será que trazem alguma comida?


FILHO: São crianças cantando!


FILHA: Trazem comida?


BIBI: Se dividam em dois grupos crianças e vão para as suas posições! Rápido!


PEDINTE: Minha senhora tenha piedade dessas minhas crianças que desde ontem ainda não comeram nada.






ZEJIPE: Maria, você chegou a conhecer a Bibi? Quando ela chegou aqui em Macaíba, você nem existia mais.


MARIA CABRAL: E a revelação é de quem? De Maria Cabral que sou eu, que estou contando e misturo o tempo da forma que eu quiser.






BIBI: Meu nome é Emilia, mas todos me conhecem por Bibi e sou catequista da igreja e irmã do padre da cidade. Moro ali, na casa paroquial e se a senhora aguardar um pouquinho enquanto ensaio com as crianças, iremos todos tomar uma deliciosa sopa lá em casa.


PEDINTE: Claro que esperamos bondosa senhora.


BIBI: Mais tarde nos encontraremos aqui, no adro da igreja. Fiquem com Deus.






ZEJIPE: Eu acho que vou deixar de engraxar e vou virar pedinte. É muito mais fácil.


MARIA CABRAL: Você é que pensa. Sobreviver é uma luta diária, principalmente para uma pedinte. Eles nunca sabem se vão comer amanhã.


ZEJIPE: Vê Maria Cabral, as pessoas estão passando e colocando moedinhas na Mao da senhora.


MARIA CABRAL: É a mão da Virgem ajudando aos seus. Ela não desampara ninguém.


ZEJIPE: Você ta é muito da sabida. Inté parece as beatas da igreja.






BIBI: Vamos crianças, corram pra casa que eu vou avisar ao padre!


PEDINTE: O que aconteceu, minha senhora?


BIBI: O mal se apossou da igreja e eu tenho que avisar ao padre! O tinhoso ta na casa do senhor!


PEDINTE: Mas minha senhora...


FILHA: E a sopa?


FILHO: E agora, o que iremos comer?


PEDINTE: Com o dinheinho que nos deram, vamos para os boinhos do mercado comer alguma coisa, mas antes vamos olhar o que na igreja aconteceu?


FILHA: deus nos livre mãe será que a senhora não escutou o que a dona saiu gritando?


É melhor a gente correr pra longe daqui.


PEDINTE: se tão com medo podem ficar aqui, pois eu to com deus e vou olhar com a proteção dele.


FILHA: Num fico só aqui nem a pau. Vou com a senhora também.


FILHO: E eu mais tigo, mana.


PEDINTE: Vamos nos benzer e entrar.






ZEJIPE: Vareite, Maria, que eu num to lembrado desse alvoroço na matriz, não senhora.


MARIA CABRAL: E nem podia, porque a gente já tinha morrido.


ZEJIPE: E como tu sabes disso tudo?


MARIA CABRAL: Só sei que eu sei.


ZEJIPE: E o que bexiga tinha dentro dessa igreja? Ave Maria, me desculpe minha Nossa Senhora pelo palavrão, mas é que eu to encafifado, doidinho pra saber o que aconteceu em vossa casa.


ZEJIPE: O sino tocando uma badalada! Será que é seu Adelino querendo avisar alguma coisa pra a cidade?


MARIA CABRAL: por que agora é ontem, quando tudo aconteceu.


ZEJIPE: Você agora me deixou todo atrapalhado.


MARIA CABRAL: A missa fazia tempo que já tinha terminado e a cidade era um silencio só. Todos os macaibenses dormiam o sono dos anjos, menos alguns arruaceiros, mau feitores, desordeiros que sorrateiramente invadiram a matriz pela janela da sacristia.


ZEJIPE: Pra rezar?


MARIA CABRAL: Meu bom José, como você é tolo.


ZEJIPE: Pode me chamar de Zé, Maria que já to acostumado e quanto ao tolo, num to entendendo.


MARIA CABRAL: Eles esperaram que a cidade dormisse para entrar na casa sagrada e fazerem a maior imundície, que nós seres devotos e respeitadores das leis de Deus não conseguimos nem imaginar.


ZEJIPE: Que safados! Se eu estivesse lá botava todos pra correr.


MARIA CABRAL: por erro do destino, nessa noite a pedinte e seus dois filhos estavam dormindo nos bandos da igreja.


ZEJIPE: Coitados! E os malfeitores pegaram eles?


MARIA CABRAL: Quando eles perceberam que eles estavam lá, a pedinte e os seus dois filhinhos já estavam na porta da igreja, prontos para fugir. Eles foram avançando pra cima deles e como um milagre, a pesada porta da igreja que estava fechada, sozinha se abriu.


ZEJIPE: E num é que abriu mesmo. Me arrepiei todinho.






PEDINTE: Pelo o amor de Deus, por favor, não nos faca mal! Só estávamos dormindo porque não tínhamos para onde ir.


FILHA: Meu Deus, mainha, ta saindo deles por tudo o que é lado.


FILHO: Inté parece um bando de formiga. Espia, mãe que inté lá de cima vem saindo deles.


FILHA: Eu nunca vi, mas parece um bando de demônios.


PEDINTE: Por favor, não façam mal aos meus filhinhos, eles são inocentes! Meu zeloso guardador, se a ti me confiou à piedade divina, sempre nos rege, nos guarde e conserve, amem.


FILHO: Com Deus me deito e com Deus me levanto a piedosa graça de Deus e do divino Espírito Santo.


FILHO: Jesus, Maria e José, nossa alma vossa é.






ZEJIPE: Nunca vi a frente da igreja tão feia assim. Como é que homens, filhos do mesmo Deus, se transformam dessa maneira?


MARIA CABRAL: É porque eles não reconhecem Deus como o nosso único pai.


ZEJIPE: Olhe como eles dançam festivamente, Maria.


MARIA CABRAL: estou vendo José.


ZEJIPE: E você com essa sua inteligência, porque não faz alguma coisa por essa pobre família?


MARIA CABRAL: Tudo há seu tempo.


ZEJIPE: E vamos ficar de braços cruzados vendo esses monstros atacarem essa indefesa família?


MARIA CABRAL: Tudo há seu tempo.






INVASOR 1:Todos vocês quietos! Bando de arruaceiros vitoriosos!


INVASOR 2: Pergunto a todos vocês; quem manda nessa cidade?


TODOS INVASORES: Nós!


INVASOR 1: Não escutei!


TODOS INVASORES: Nós!!


INVASOR 1: Essa invasora em nosso meio, que irá nos deletar para essa falsa sociedade! Que irá nos entregar reconhecendo um a um para o delegado de nossa cidade.


INVASOR 2: Quem manda ela está no lugar errado e na hora errada? Quem manda esbarrar conosco? Quem manda ser miserável a ponto de não ter onde morar? Somos nós os culpados dela está aí dentro?


INVASOR 1: O que estamos esperando para realizar o seu julgamento?


TODOS: O nosso chefe!


INVASOR 2: Não escutei! Quem estamos esperando?


TODOS: O nosso chefe!


CHEFE DOS INVASORES: Sou eu!


INVASOR 1: O senhor ta comendo as bulachinhas brancas do padre, chefinho?


CHEFE DOS INVASORES: E o vinho dele também!


PEDINTE: Minha santa mãe de Deus!


CHEFE DOS INVASORES: É com ela que eu quero falar mesmo! Onde ela está? Onde se esconde que não estou vendo? Porque essa que você diz que é a toda poderosa não vem lhe salvar agora? Cadê a cara dela que eu não estou vendo? Segurem essa miserável pelos cabelos e arraste-a ate a porta dessa casa! Agora!.. Bata na porta e chame por ela agora sua miserável! Peça! Implore pra ela vim lhe salvar!.. Se adorar a mim daqui você sairá salva, mas se continuar a chamar e adorar quem não existe eu arrancarei a sua cabeça e desses seus dois fedelhos. Diga que me adora sua miserável!


FILHO: Pelo bem que a senhora quer a gente, mãezinha, diga logo pra que ele não nos mate! Por favor!


FILHA: Pelo o amor de Deus mãezinha, nos salve!


CHEFE DOS INVASORES: Pelo o amor de quem, sua fedelha? Pela minha piedade! A lei aqui nessa cidade sou eu! Estou marcando território primeiro aqui e depois todos os recantos dessa cidade! Eu sou deus!!!


INVASOR 1: Se ajoelhe sua miserável e adore o nosso deus!


PEDINTE: Deus só existe um, que é o Deus de Israel, de Abraão e de Isaac, que é o Deus que salva, que perdoa e que ama. Meu Deus é com D maiúsculo, é o Deus que envia o seu exemplo de filho para redimir todos os pecados da humanidade. O seu deus não será jamais o meu, mas o meu deus será um dia o seu em honra e glória. Se me matarem é porque chegou o meu dia e minha hora e eu irei feliz servir ao Senhor, mas sei que a minha protetora a virgem Maria, a concebida sem pecados não permitirá que dois inocentes fiquem órfãos e a perambular por esse mundo tão perigoso!


FILHA: Solta a minha mãe!


PEDINTE: Fujam meus filhos! Se salvem!


CHEFE DOS INVASORES: Cadê ela que não vem te salvar agora!


PEDINTE: Valei-me minha Virgem Santíssima! Minha Nossa Senhora da Conceição!


INVASOR 2: Chefe! Olha que clarão no céu!


FILHA: Vários anjos estão vindo do céu, mãezinha cantando em louvor! Glória a Deus!






MARIA CABRAL: Quando os desordeiros viram que a coisa ia esquentar para o lado deles, quiseram fugir, mas 20 policiais armados cercaram todo o bando.


ZEJIPE: Espera lá, Maria Cabral! Se a delegacia de Macaíba só tinha o delegado e três soldados, como é que de um nada você me aparece com 20? Essa historia está mal contada!


MARIA CABRAL: São os mistérios da multiplicação.


ZEJIPE: Ah!


MARIA CABRAL: E no desenrolar da historia, aconteceu a conversão, e todos os malvados conheceram em seus corações.






FILHO: Olha mãe aquela nuvem iluminada, nela tem uma santa! Que coisa linda meu Deus!


PEDINTE: louvado seja o nosso Deus Pai todo poderoso e Nossa Senhora da Conceição!


FILHA: É Nossa Senhora da Conceição!










- APARECE A VIRGEM MARIA EM TODO O SEU EXPLENDOR, SE CANTA O HINO DA PADROEIRA DA CIDADE E NO TERMINO DO HINO UM ANJO COROA A VIRGEM.






NOSSA SENHORA DA CONCEICAO: Que essa coroação sirva de aliança com o povo dessa cidade e a certeza que a fé remove qualquer empecilho de vossas vidas. Louvado seja o Nosso Senhor Jesus Cristo, meu único filho, aquele que Deus enviou para nos salvar.






ZEJIPE: Pia Maria Cabral, aquele anjo ta nos chamando com a mão. A hora é chegada.


MARIA CABRAL: É muita honra pra nós dois, subir aos céus com a mãe do Salvador.


ZEJIPE: Mais que revelação bonita, Maria. Aí sim que é prova de fé. O que tu ta procurando Maria?


MARIA CABRAL: O meu hibisco vermelho que perdi.


ZEJIPE: Igual a esse que está surgindo na sua cabeça?


MARIA CABRAL: Mas como?


ZEJIPE: Mistério!


MARIA CABRAL: Vamos que o anjo está chamando.


ZEJIPE: E nós vamos pela igreja, Maria?


MARIA CABRAL: José, a nossa igreja é a porta do céu.


ZEJIPE: Amém!


Juscio Marcelino de Oliveira


Macaíba (RN), 27 de junho de 2010


20:01

sábado, 24 de setembro de 2011




MINI TEXTO PARA TEATRO

“BOTICA DO CÃO”
   


PERSONAGENS:                        ATORES DA 1ª MONTAGEM
 Mariquinha                                     Liliane Alves
 Cão (disfarçado)                            Allan Shimith
 Cardinho                                        Edenildo Guedes


CARDINHO: Raiou o sol, se esconde a lua para presenciar mais uma das aventuras cozidas pelos causos vindos da terra do tiquinho, trazendo um santo como escudo e brasão e toda devoção de um povo cristão. Terra sofrida, mas otimista, perseverante e guardiã das virgens da purificação. Vamos  nessa linda noite vivenciar uma pequena história nessa terra de minhas andanças, história essa tecida pela minha família e que tem como protagonista a minha tia Mariquinha, uma beata de devoção, carola daquelas doentes que morrem de medo do cão. Mas certo dia, como Jesus Cristo, ela também se encontrou com o tinhoso; o cão!

 MARIQUINHA: Valei-me minha virgem Maria; Nossa Senhora da Conceição! Meu santo Expedito e o coração de Jesus menino e salvador, bento pelas cinco chagas de Nosso Senhor todo poderoso e reforçado pelas rezadeiras e benzedeiras daqui desse sertão. Viche, que hoje eu estou com o...

TODOS: (ocultos como sugestão) Com o cão!

MARIQUINHA: É a mãe! O cão é a mãe de vocês que se bem andam devem estar fazendo outras misérias iguais a vocês! Seus infelizes das costas ocas do estopo balaio na quinta feira santa! Judas! O filho do tinhoso é a mãe!.. Meu Jesus me martiriza com o espinheiro sagrado, me castiga nas ladeiras da vida, me joga Senhor nas paredes carrapichentas da lamentação, mas se é uma coisa que eu não suporto mais é esse povo sem seu pai no coração e me frechando que é uma danação. Arranca senhor de mim essa aperreação.

CARDINHO: Bença tia?

MARIQUINHA: Cardinho!

CARDINHO: Quem fala sozinha ta falando com o cão, tia Botica.

MARIQUINHA: Cardinho!!

CARDINHO: Quer dizer; tia Mariquinha.

MARIQUINHA: Até tu Cardinho, sangue do meu sangue, alma da minha salvação, meu sobrinho preferido, até tu meu Cardinho sagrado?
CARDINHO: Sabe como é tia, o povo fala tanto que eu termino acostumado com esse nome. Desculpa.

MARIQUINHA: Quem? Eu quero nomes! Quem tanto nessa cidade me chama de... Você sabe de que.

CARDINHO: Botica do cão, tia?

MARIQUINHA: Não precisa ta repetindo! Mas me diga meu sobrinho quem tanto me chama por este apelido horroroso para que eu possa processar, mandá-los para a cadeia, queimá-los na fogueira sagrada, me diga sobrinho da purificação.

CARDINHO: Toda a cidade. É mais fácil eu lhe dizer quem não diz.
MARIQUINHA: Ai meu Deus do céu, da terra e do mar, o que irei fazer meu pai todo poderoso, tende piedade de sua filha amada e devota, fervorosa e ralada feita milho pra canjica na fé, me mostra uma saída meu pai, quem irá me ajudar e quem irá me tirar dessa danação?

CÃO: Eu!

MARIQUINHA: Ai meu Deus... Que negão!

CARDINHO: É nessa hora que a história da minha tia começa a virar folheto de cordel, de uma forma engraçada e jamais vista por esse sertão. Espia minha gente que grande tentação; a pobre da minha tia tão enfiada dentro das orações que nunca tinha visto um homem garboso feito esse negão. Os homens que ela conhece são os poucos velhos e meninos aqui da região. Tia mariquinha sempre foi uma beata prendada, muito dedicada e nunca deu um beijo ou um amassão. E só um inimigo declarado ela tem; o cão.

CÃO: (canta e dança sensualmente para Mariquinha).

CARDINHO: Muito desconfiado eu fiquei com esse negão; o perfume dele tem cheiro de enxofre e tudo o que é de moça desse lugar doidas para com ele namorar, mas os olhos dele não quer saber de outra a não ser a minha tia Mariquinha que é mais conhecida por Botica e que é feia feita uma assombração.

MARIQUINHA: (Canta e dança hino religioso).

CÃO: Vim lá das profundezas dos cafundós só a rosa mais cheirosa encontrar, na cidade do sol nascente, onde mora a mais bonita donzela, vestida de renda purificada, perfeita feito uma cinderela que se esconde nos afazeres da lida, mas resplandece como uma aurora ou uma flor em plena primavera. O meu destino me desafiou essa flor encontrar e aqui estou aos seus pés, a sua mão querendo beijar.

MARIQUINHA: Não sei o que comigo está acontecendo, mas não consigo em outra coisa pensar e os meus olhos estão hipnotizados por esse homem que está a me cortejar. Pedi a Deus uma ajuda e ele enviou esse anjo para me salvar.

CÃO: Não bote esse homem no meio de nossa prosa porque aqui eu to cumprindo a minha missão; conquistar o seu coração e logo ele devorar, ter você todinha pra mim, até a sua alma eu me apossar.

MARIQUINHA: Que calafrio, que mau agouro que agora vim sentir, é como se o tinhoso tivesse aqui por perto querendo me possuir.

CÃO: Vem beata linda, donzela da minha salvação, vem pra o colinho do papai fazer a ultima oração.

CARDINHO: Aí tem um erro e eu não sei o que é, mas tenho que salvar a minha tia Mariquinha e já sei o que fazer!

CÃO: Senta minha beatinha em meu colinho e deixa em tua boa a sua alma sugar.

CARDINHO: Botica do cão!!!

MARIQUINHA: É a mãe!

CARDINHO: Ele desapareceu.

MARIQUINHA: Quem?

CARDINHO: Ninguém, deixa pra lá. Mais tia, mãe é sua irmã.

MARIQUINHA: Pode ser quem for e principalmente a sua mãe por não ter dado os devidos corretivos educacionais em você. Eu te desconjuro Cardinho.

CARDINHO: E o que foi que eu fiz minha tia?

MARIQUINHA: Se arrependa Cardinho, se redima dos seus pecados ajoelhado ao pingo do meio dia sobre caroços de milho e só assim te aceitarei como um bom cristão.

CARDINHO: E eu pequei?

MARIQUINHA: Se ajoelha! Senhor, Deus pai todo poderoso, criador do céu e da terra, tende piedade desse pequeno pecador, desse inocente que acaba de começar a viver! Amém! Salve a alma dessa pequena criatura Senhor, sem eira nem beira...

CARDINHO: Espera lá tia, aí a senhora está apelando; posso não ser ninguém, não ter eira, mas as minhas beiras estão todas aqui.

MARIQUINHA: Não se entregue Cardinho! Resista! Não permita que o maldito tome posse do seu frágil corpinho meu sobrinho! Amém! Pelo poder de Deus pai; o espírito desse inocente não será tomado jamais pelo satanás!

CÃO: Me chamou?

MARIQUINHA: Que catinga danada de feijão queimado...

CÃO: Me chamou!

MARIQUINHA: Meu pai me proteja pois acredito que estou ouvindo a voz do desconjurado.

CÃO: O filho do tinhoso zambelê.

MARIQUINHA: Que nessa terra nada irá comer!

CÃO: Nem essa doce donzela? Estou atrás de você.

MARIQUINHA: Nem a... Negão! Que botico arregalado é esse?

CÃO: É para te ver melhor minha pura donzela.

MARIQUINHA: Que par de beiços é esse meu... Negão?

CÃO: É um sugador de almas meu tesão. Minha botica do cão.

MARIQUINHA: É a mãe!

CÃO: Nada poderá me impedir de sugar a sua alma e se tornarás para sempre a minha botica do cão! Você será aminha botica e eu sou a sua tentação! O cão!!!

CARDINHO: Tia Mariquinha se armou com um terço bento por Frei Damião e pôs uma mantilha preta das devotas da salvação e olhando compenetrada para o povo daquele lugar que estavam todos a observar pediu com toda fé ajuda para acabar com a sua maldição.


MARIQUINHA: Reconheço minha gente que servir a Deus é servir ao próximo e eu nada disso estava a fazer, ao contrário; trancada só rezando, esquecendo-se do mundo e se achando a salva do lugar e sei que essa é a maior prova que Deus me enviou para que eu possa me transformar e ele mexeu com a minha maior fraqueza que é a enorme vontade de casar. Peço humildemente a todos que aqui estão que se armem comigo com a reza da salvação, eu aqui vou falando e vocês repetindo com toda fé e devoção.

CARDINHO: Antes da minha tia Mariquinha começar a orar, o tinhoso a sua roupa começou a tirar, utilizando as suas ultimas armas para a alma da minha tia sugar.

MARIQUINHA: Fechem os olhos minha gente e não caiam nas armadilhas da tentação! Gritem bem forte o que aqui eu falar para esse infame nós expulsar: Sai!

CÃO: Arre! Dancei, pulei e nada. Cheguei a chamar esse tribufu aí de flor e esse é o pago de vocês?

MARIQUINHA: mais uma vez minha gente com mais força: Sai!      

CÃO: Ta bom! Eu já entendi bando de mal agradecidos. Ta aqui pra vocês!

CARDINHO: O povo derrotou o tinhoso do sertão e minha tia feliz foi agradecer a comunidade que unidos eles tem força para derrotar um batalhão e nesses agradecimentos a minha tinha encontrou um amor...

MARIQUINHA: (Com uma pessoa da plateia) Cardinho meu sobrinho amado, noivei e estou para casar com esse garboso rapaz que a minha mão ele existe em desposar.



CARDINHO: Para a nossa pequena história terminar só está faltando o casal se beijar.

TODOS: Beija!!!


MACAÍBA(RN), 05 DE OUTUBRO DE 2000





quarta-feira, 13 de abril de 2011


PAIXÃO DE CRISTO

EM CAJAZEIRAS, COMUNIDADE DE MACAÍBA
DIA 22 DE ABRIL
DIREÇÃO: CHIQUINHO
FIGURINO: JUSCIO MARCELINO
LUZ E SOM: AJAX SOM
DOCUMENTÁRIO: WEDSON POETA E MÁRCIO LUCAS 

DOCUMENTÁRIO 








































terça-feira, 12 de abril de 2011






Quando escrevi "O Céu dos macaibenses", já havia escrito vários outros textos que não foram guardados e se perderam pelo caminho.
"O Céu dos macaibenses", é um texto leve, que trata de um mundo espiritual, com personagens reais mas, soltos, livres do que alguém acha, já falou ou escreveu sobre eles. Uma transgressão celestial.
A minha admiração é enorme por cada um dos personagens, mesmo só tendo conhecido o Prego, Zé Jipe, Isabel e Sabiá. Quando criança, sempre os encontrava de frente ao mercado, onde hoje é a Praça da Juventude. Lá, em frente ao mercado público existia o que chamávamos de "boinhos" - mines cigarreiras - que vendiam de um tudo e era o ponto de encontro das ilustres figuras populares da cidade. Isabel Cruz foi minha mentora teatral.
Os filhos ilustres, eu só os conheço na história escrita e, nas inúmeras conversas que tive com estudiosos e antigos populares. Mostro o lado simples, comum, o dito normal, o não convencional bibliográfico. Com certeza, estarei fomentando a pesquisa, a busca da identidade real daqueles que contribuíram com a história do nosso município. Provocar é o verbo adequado para o objetivo desse texto teatral, sem nenhuma fundamentação na doutrina espírita.
Os outros textos foram surgindo, dentro do processo criativo, do grande casamento que fiz com a escrita. O lápis dançando, a tinta saindo e o personagem surgindo. É puro prazer.

O autor







"O CÉU DOS MACAIBENSES"


Personagens:

* Anjo Gabriel;
* Major Andrade;
* Auta de Souza;
* Augusto Severo;
* Alfredo Mesquita;
* Sabiá;
* Orestes;
* Zé Jipe;
* Beleza.


Gabriel: Boa estada nesta peça teatral que relata fatos que não personalizaram os vultos históricos eternizados pelo tempo. Sou o anjo Gabriel, o sindico de um dos hotéis mais luxuosos da rede celestial, o hotel "O céu dos macaibenses", que está sob a direção de São Benedito, um dos santos mais ricos nesse imenso mundo de negócios que se chama Céu. Estamos em uma das suites, relatando o outro lado, a outra possível face das grandes manifestações da inteligência. Como diria Ramalho Urtigão "Sem alegria, a humanidade não compreenderia a simpatia e o amor".
Andrade: Bravo, muito bom...
Gabriel: Obrigado Senhor, eu...
Andrade: Andrade, Major Andrade.
Gabriel: Desculpe-me Major, não percebi a vossa chegada. Eu só estava tentando explicar...
Andrade: Não precisa explicar nada pra mim. Cada morto com sua mania, eu tenho a minha, você tem a sua, e quem sou eu pra discutir com... mas, como é mesmo a sua graça?
Gabriel: Gabriel, sindico do céu, deste céu, em específico. Major é novo por aqui?
Andrade: Sim, ainda estou em fase de adaptação. Mas, antes de chegar aqui, eu passei por lugares que até vivo duvida que exista. Aqui neste céu, é muito tranquilo, muita paz, lugarzinho pacato. Sinto-me em casa após uma braba eleição.
Gabriel: Gostou? Eu que mantenho tudo em ordem. O silêncio, essa paz, o ambiente, tudo depende de mim e posso melhorar ainda mais, posso até arranjar um lugarzinho na cobertura pra o senhor ficar mais pertinho de Deus. O que achas?
Andrade: E porque ainda não estou lá?
Gabriel: Basta que o Major molhe a minha mão com lustrosas estrelas do cruzeiro do sul e tudo será resolvido no maior sigilo.
Andrade: Então, quer dizer que você é o tal que faz as marmeladas aqui no céu?
Gabriel: Alto lá! Sou um anjo de carreira e não me envolvo com esse tipo de coisa. O que estou propondo é um negócio, se não quiser, morre aqui o assunto.
Andrade: Você disse; o assunto morre aqui? Até aqui, Senhor Deus, nem o céu escapa de falcatruas, de ladrões, corruptos!
Gabriel: Isso é um insulto! Não confunda com qualquer coisa que os homens possam fazer para conseguir garantir uma gorda aposentadoria de forma errónea. Aqui, isso não! Céu é céu e terra é outra história. Céu é anjo, por exemplo, eu, e terra é o senhor e quem merecer. Percebe que são realidades diferentes, seu ignorante. Tento ajudar, mas não, vem um soldadinho raso me desacatando...
Andrade: Soldado raso é a mãe!
Gabriel: Passar mal!
Andrade: Eu sou Major por merecimento, seu anjo bobão, ladrão, safado! Eu tenho honra, não sou como uns e outros que só era venha nós. Se quiser, pode ir lá na terra agora, pode ir, pergunte pra qualquer pessoa se eu num fui o o herói dos pobres , que doei terras, que eu fiz o que muitos não fizeram e nem fazem hoje, acredito, a tão chamada reforma agrária.
Auta: Estás falando sozinho, Andrade?
Andrade: Com um tal de anjo Gabriel, um corrupto, safado. Mas não vai ficar assim, ele não me conhece. Não sabe do que sou capaz. Vou arrancar as pernas, os canhões, irei depená-lo.
Auta: Calma Andrade, você é calouro no céu.
Andrade: E o atrevimento dele, senhorita Auta de Souza, aquele safado de asa me chamando de soldado raso, como é que fica? Terei que calar, dando o goto seco? Essa não, Auta de Souza, basta me encontrar com ele que eu irei...
Augusto: Matar o anjo e mandar pra terra em forma de trovão, onde sairá estampado na primeira página dos jornais - "A alma mata o anjo", seria muito engraçado, Andrade.
Auta: E você, Augusto Severo, é muito...
Augusto: Criativo, bonito, feliz, não é mesmo, grande poeta de um livro só. Mas de quem ou de que vocês estavam falando mesmo, quando este jovem inventor entrou e foi forçado a contemplar um diálogo chula e degradante?
Andrade: Era de...
Auta: Escorpião.
Andrade: Auta?
Augusto: Bravo, chamuscada poeta! Diretamente de Nuvens Gerais, precisamente no céu dos macaibenses para o fantástico, o blá, blá, blá da poeta do desespero.
Andrade: Mas veja bem. Onde estou. Quem diria. Se contasse na terra, ninguém ia acreditar, iam me chamar de louco.
Alfredo: Mas tem quem diga o contrário, meu caro Augusto Severo, é só você que pensa assim. Estavas falando de que mesmo, venerada poetisa, para se criar todo esse furdunço?
Andrade: Até que em fim, apareceu Mesquita. Anda se escondendo ou de teretetê com aquele anjo safado? Você não perde tempo. Eu te conheço Mesquitão. Tu tá tramando, não sei o que,mas que tá, isso tá.
Augusto: Ele tá é morrendo de vontade de voltar para terra, Major Andrade. Eleição a vista.
Alfredo: E pensava você que eu já tinha nascido? Engano seu. Vocês terão que me aguentar por muito tempo. Renderei muito sobre essas nuvens.
Augusto: O velho Alfredo, tranquilo e manhoso... o que andas a fazer? Sei que coisa boa não deve ser. Um político estrategista na terra, aqui não será diferente. Aí tem, velho Alfredo Mesquita, e coisa boa que não é, não é isso Andrade?
Andrade: Cala-te boca. Por hoje, já falei demais.
Alfredo: Cada um fala o que quer. A nossa arma é a palavra e também é aprendizado. Através dela semeamos o bem e o mal, e espero que seja o primeiro, o favorito. Auta, por favor, leia essa matéria sobre Macaíba que encontrei nos arquivos e achei parecida com você.
Andrade: To besta. Mesquitão parece um doutor no palavriado.
Augusto: Estavas bisbilhotando os arquivos de São Gabriel, Alfredo? Se um dia ele te pega, não quero nem tá perto. Mas o que você realmente estava querendo lá em seu espertalhão? Quem sabe, eu possa te ajudar, te prestar uma assessoria.
Andrade: Não, essa é demais. Macaíba já viu tudo na política, aquilo o que ninguém pode imaginar, pois já aconteceu, mas essa do Augusto Severo propor assessoria, só um louco poderia acreditar numa conversa dessa, e logo a quem. Uma cobra criada igual ao Mesquitão.

Alfredo: Vê se fala alguma coisa sobre o meu povo, Auta, se tem algum político nos meus descendentes, realizando um trabalho honesto.
Augusto: Ele pensa que milagre existe. Você tá de gozação, não é Alfredo?
Alfredo: Mas hoje vocês me escolheram para Cristo. Mirem em outra direção.
Andrade: Você quer ser canonizado, diga logo Alfredo, mas dizer que político é honesto, tu tá variando. Quer que eu relacione algumas das tuas, quer?
Auta: Chega rapazes! Pois não, senhor Alfredo Mesquita, farei a leitura com o maior prazer "Jornal da Terra, Macaíba/RN, 13 de junho de 1982". Em versos, segue esta informação para aqueles que passaram do portão:
Para esclarecer os amigos
Que passaram do portão
Vou contar uma história
De grande apreciação
É de Macaíba que vou falar
Com amor no coração.
Em outubro de 1877
Em 27 do mesmo mês
A antiga vila Coité
Se tomou cidade de uma vez
Nas mãos de homens trabalhadores
Com um dono de terra bem cortês.
Expandiram-se neste lugar
Fazendo a vila crescer
Se alastrando em toda zona
Para todo povo vê
Que a vila de Fabrício Gomes Pedrosa
Uma cidade iria ser.
Daqui saiu Augusto Severo
Auta de Souza também saiu
Foram sendo propagados
Fora e dentro do Brasil
Dessa pequena cidade
Gente importante já se viu.
Macaíba dormitório
Cidade domingueira
Terra de 150 vultos históricos
Importantes como as estrelas
É d'água da raiz
Que irei beber a vida inteira.
Alfredo: Merece aplausos!
Andrade: Não aplaudo. Não falaram meu nome, a importância da minha família, da minha luta e conquistas, das terras que doei, de como ajudei essa cidade crescer. Que povinho nojento, descartável, sem memória, sem cultura. Povo mequetrefe, desprezível, sem memória.
Alfredo: Deixa de ser empacado homem. Será que você não escutou a parte dos 150 vultos históricos?
Andrade: Sem nome, de que adianta. Não gostei e pronto. Se dizendo o nome, o povo não presta muita atenção, e imagine sem dizer. Quem é que vai saber quem eu fui. Esses jovens não devem saber nada da nossa história, da minha precisamente.
Augusto: Dessa eu gostei. O grande Augusto Severo. Quer dizer, que Macaíba não foi ingrata comigo. Será que construíram um hangar com a réplica do meu balão? Olha aí, Auta, se eles não falam dos museus em minha homenagem? Macaíba hoje deve ser conhecida pela cidade do balonismo, desbravadora dos ares, e eu hoje, orgulhoso, feliz, realizado.
Sabiá: Licencinha. Seu Mesquita. Tem uma senhora baixinha que entrou pela porta dos serviçais dizendo que só arredará o pé daqui quando falar com o senhor.
Augusto: E a segurança, não existe mais nesse hotel?
Andrade: Pergunta ao anjo corrupto. Será que você tá devendo algum pra ele, Alfredo? Porque se tiver, tá lascado.
Sabiá: Já fiz de tudo para ela ir embora, mas não tem acordo. O que irei fazer? Se aqui tivesse um mordomo ou um segurança, mas não, tudo sou eu. Será que um de vocês não poderiam me ajudar?
Andrade: Até aqui no céu, Alfredo?
Augusto: Político honesto. Só você, Alfredo Mesquita. Só você e os devotos de São Longuinho. Me desculpe a ofensa, São Longuinho.
Andrade: É bem os defuntos que te elegiam na terra. Agora é acerto de contas. Vai ver que foi o anjo que te entregou. Tá lascado. Essa eu vou apreciar de camarote.
Alfredo: Chega! Quem é, Sabiá?
Sabiá: Parece que ela quer pedir alguma coisa para o senhor.
Andrade: Eu sabia, não erro uma.
Augusto: Também, é da mesma escola do Mesquita.
Sabiá: Será que não perdem o hábito de viverem pedindo, sempre. Não olhem assim pra mim.Os senhores sabem muito bem que eu vivia em um abrigo para idosos e pedia porque precisava,mas tinha muita gente, que eu sabia muito bem, que pedia sem precisão, só de olho grande, na ganância.
Alfredo: Mas isso é política, não é mesmo, Sabiá?
Sabiá: Sei responder não. Só sei que se der a ela eu quero também, principalmente os seis meses que estão me devendo. E só quero que não me paguem, pra ver essa neguinha aqui rodando numa perna só.
Auta: E agora, Alfredo?
Sabiá: Vocês vivem me enganando. Vivem nesse prédio chique, mas mal têm dinheiro pra pagar a comida e os empregados, quer dizer, a besta aqui. Também ninguém lá em baixo não lembram mais de vocês, nem uma rezinha. Como é que pode ter crédito aqui em cima.
Auta: Mas você hoje parece que cuspiu na capa de São Jorge, Sabiá.
Sabiá: E aí, o que vão decidir? Se não resolverem esse problema, o dragão de São Jorge vai engoli os veacos desse andar.To de olho. Pra mim abrir uma CPI é bem ligeirinho.
Orestes: Da licencinha, seu Alfredo Mesquita? Desculpe Sabiá, mas num gosto de esperar na cozinha dos outros, principalmente numa chiqueza igual aquela. Tá aí seu Mesquita que num me deixa mentir. Eu tava cansa de chegar lá na casa dele, e ele tá ceiando na cozinha e me mandar entrar, eu nunca entrei, ficava na varanda até ele terminar, entrava uma cambada, mas eu não, por que a hora de comer é sagrada, é a hora mais preciosa do homem com Deus.
Augusto: O circo está armado.
Sabiá: Mulherzinha, eu não disse que esperasse na cozinha.
Alfredo: Você aqui, Orestes?
Orestes: Me desculpe, seu Alfredo Mesquita, eu entrar sem ser a minha vez, é que o mingau nevado está quase queimando, lá na cozinha e eu vim avisar.
Sabiá: Me deixa passar!
Orestes: Corre mulher! Posso já ficar aqui num cantinho esperando a minha vez, seu Alfredo Mesquita? Garanto que não vou atrapalhar a prosa de vocês. Quando o senhor achar que deve me atender.
Andrade: Deixe vê se eu entendi direito; você está aqui para pedir, não é mesmo?
Orestes: Eu vim pedir a seu Alfredo Mesquita um grande favor.
Alfredo: Já sei. Você na terra me pediu um burro com cangalha e tudo, pra poder vender água, mas não me diga que veio aqui para pedir o burro que carregou o menino Jesus lá na terra?
Orestes: O senhor continua o mesmo, seu Alfredo Mesquita, adivinhão como sempre. Eita cabra porrete.
Auta: Estou boquiaberta. Jamais pensei de presenciar tal cena.
Andrade: Sente para não cair porque o show só começou. Agora vem a melhor parte, o momento que o poder impera, radicaliza, provoca o diferencial.
Augusto: E salve a honestidade!
Alfredo: Sabiá!
Orestes: Deixe que eu vou chamar, seu Alfredo Mesquita. Num tem pressa. Deixe que eu vou chamar a bichinha. Só Deus paga esse favor.
Sabiá: Não precisa, já estou aqui, e a bichinha é a mãe. To de olho. Se derem a ela, eu também quero, pode ser o que for, quero nem saber.
Andrade: É um burro o que ela quer.
Sabiá: E aí, major, Charque nevada é uma nota. Quero nem saber, mas também quero.
Orestes: É seu Alfredo Mesquita que quer uma palavrinha com você, Sabiá.
Sabiá; Pensei que era gente. O que é?
Augusto: Quem te viu e quem te vê, Alfredo.
Orestes: Mulé, é o doutor Alfredo Mesquita, respeite o home.
Augusto: Doutor?
Andrade: Esse é o poder imperando.
Auta: Pode-se tudo quando se tem poder.
Sabiá: Tá bom de vocês providenciarem uma ajudante pra mim. Sou tudo nesse museu. Lavo, passo, cozinho, dou recado e atendo a porta, arrumo e espano, lavo banheiro cagado, tudo. E esses troços não querem me pagar.Eu me revolto.
Auta: Santo Deus.
Sabiá: O que é, dona Auta?
Auta: Foi o Alfredo que chamou. Já me calei. Não está mais aqui quem falou.
Sabia: Eu sei. Estou perguntando, porque tá me encarando?
Alfredo: Sabiá! Mais respeito.
Sabiá: Vê se me dá um descanso, né, seu Alfredo. Essa minha perna manca tá doendo demais, e quem tá pedindo é essa senhora e eu só to de olho. Num brinquem comigo, vocês não conhecem o poder da minha perneta.
Alfredo: Acompanhe esta mulher até a portaria ,Sabiá, carimbe esta ordem e entregue a ela. Preste atenção Orestes, vá diretamente ao escritório de São Pedro e entregue este bilhete na mão dele, entendeu?
Orestes: Sim,senhor. Que homem santo o senhor é, seu Alfredo. Que Jesus e todos os santos lhe pague. Esse homem é um santo, minha gente. Viva seu Mesquita!
Augusto: Só você, Alfredo.
Auta: Gente, estou besta.
Sabiá: Estamos mortos e esse favor o senhor fará se quiser, não vai adiantar para as eleições na terra.
Alfredo: Você é que pensa.
Orestes: Obrigado senhor, Deus lhe dê um bom lugar.
Augusto: Melhor do que esse, só o trono do Pai. Ou você está pensando... eu não acredito Alfredo, que você chegaria a tanto.
Sabiá: E aí, vocês vão fazer o que para me pagar, já decidiram? E a burrinha?
Orestes: Tem gente lá na porta, vi pela vidraça, dona Sabiá, e parece que a pessoa tá com pressa.
Sabiá: Isso é um inferno! O que irei fazer? Alguém me ajude! Levo a Orestes ou atendo a porta?
Orestes: Pode deixar, mulherzinha que eu acerto o caminho, vá cumprir a sua obrigação. Até outro dia, vocês. Fique com Deus, meu santinho.
Sabiá: E eu pensando que ela ia me ajudar.
Andrade: Gastou cartucho a toa.
Augusto: Poderia está calada.
Andrade: Momento de devoção e agradecimento. Pode despencar uma banda do céu que nada iria tirar a atenção da Orestes. O foco é o político.
Auta: Você quando queria o emprego era toda santinha, mas agora tá colocando as unhas de fora. Não faça isso, minha querida, nós gostamos muito de você e tudo será providenciado, ou você perdeu a fé em Deus?
Sabiá: Escute aqui, dona Autinha; estou dizendo que eu quero o meu atrasado e uma auxiliar pra me ajudar porque não sou burro de carga pra lavar, passar, cozinhar, arrumar e fazer o escambau a quatro. E quando me deram o emprego me prometeram o céu e as estrelas, e esse seu personagem da piedosa, bondosa e sofrida, comigo não. E aí?
Augusto: E você está aonde sabiá? Aqui é o céu que você merece e se dê por satisfeita.
Sabiá: Não se meta, seu Augusto, assim vai sobrar pro senhor. Pois bem, se a senhora não providenciar as minhas reivindicações, eu faço greve, dona Autinha. Estou falando sério e eu conheço os meus direitos. Sou sindicalizada. Eu deveria era lascar vocês tudinho no pau, ai sim, num instante eu recebia. Gente, eu não estou pedindo favor. Eu quero o que é meu, o pagamento do meu trabalho e vocês não estão dando a devida atenção.
Augusto: Gostei de ver. No teu tempo, um empregado tinha o atrevimento de fazer o que a Sabiá está fazendo,Alfredo Mesquita?
Andrade: Eita empregadinha porreta! Essa é das minhas.
Sabiá: E aí dona Autinha?
Augusto: Autinha? Era o que faltava. Você agora apelou,Sabiá, pegou pesado.
Auta: Senhores, me ajudem, estou vendo a hora ser tragada por essa esquerdista.
Sabiá: Empregada que valoriza seus direitos e cumpre os seus deveres, é isso que a senhora queria dizer, não é isso, dona Auta?
Alfredo: Atenda a porta, Sabiá, e deixe de lengalenga. Depois que ela está fazendo psicosocialização celestial, ficou dessa maneira.
Sabiá: Tomei uma decisão, meninos; estou em greve até atenderem minhas reivindicações, caso contrário, coloco vocês no pau.
Auta: Mais que bichinha atrevida. Senhores, façam alguma coisa. Aqui sou minoria.
Augusto: Nós damos de tudo a essa mal agradecida e ela fica passando em rosto umas míseras moedas chuvosas que devemos a ela. Se orgulhe senhora, de viver ao lado de grandes homens que fizeram a história de Macaíba.Levante a cabeça e diga que é feliz por ser serviçal dos arquitetos da história, não é isso Major Andrade?
Andrade: Não tenho nada com isso, sou novo nesse hotel. Funcionário meu lá na terra, não tinha o topete de me afrontar.
Alfredo: Iam para a chibata?
Andrade: Eu pagava em dia, nunca atrasei.
Augusto: Agora é a sua vez de pagar, mestre Alfredo. Tire da cartola a solução. Não era você o mágico da política em Macaíba? Então resolva o problema.
Alfredo: Alto lá, caro inventor. Se existe uma pessoa que deve aqui é você, que exigiu empregados. O melhor.
Andrade: Isso tudinho não precisava ser pago. Se existe Auta, uma mulher, ela é pra fazer essas coisas mesmo.
Auta: O que?
Andrade: Você não faz nada mesmo. Vive zonzando pra lá e pra cá. Vá se ocupar em alguma coisa, escrever, lavar louça, qualquer coisa, mas não, fica pelos cantos se metendo em conversa de homem. Vá ajudar a Sabiá.
Sabiá: Boa ideia. Mas isso ainda não me paga.
Augusto: Concordo, caro Andrade.
Alfredo: Olha a descriminação. Era pra todos fazerem, mas como todos ainda querem desfrutar da mordomia que tinham na terra, se acomodam, se sujeitando a essa situação. Machismo na altura do campeonato, não.
Sabiá: Todos ricos são iguais, aparência e nada mais. Na terra eu não era ninguém, mas aqui eu tenho valor. Se brincar, eu recebo reza da terra mais do que vocês.
Alfredo: Os humilhados serão exaltados.
Augusto: Eu só quero saber qual foi o bicho que lhe mordeu Alfredo.
Alfredo: Só estou tentando ser cavalheiro, gentil, educado. Não é aqui o céu?
Andrade: Só o céu pra ouvir uma coisa dessa. É pra rir? Eu acho que você tá querendo tomar o trono do criador. Cuidado Mesquitão, o tombo pode ser grande, e daqui pra o infa é só um espirro.
Auta: Chega de blá, blá, blá! Sabiá, mande a pessoa entrar!
Sabiá: Se vire, dona Autinha, porque eu nesse momento estou indo pro meu quarto curtir a FM nebulosa. Se virem!
Beleza: Licença?
Alfredo: Beleza! Seja bem vinda.
Augusto: E viva o curral eleitoral.
Alfredo: Está chegando de Macaíba?
Beleza: Não, seu Alfredo, já faz algum tempo.
Alfredo: Macaíba, que saudade. Não sei do que sinto mais falta.
Augusto: Quer voltar pra terra, Alfredo?
Alfredo: Não, caro amigo, é só lembranças. Tenho certeza que essa Macaíba de hoje não me agradaria. Não, cada um no seu tempo, e o meu foi bem vivido, assim como o de cada um.
Auta: Os seus olhos não me são estranhos.
Augusto: Agora sim. Era só o que faltava, uma oftalmologista.
Andrade: Ela foi amazona, escritora, revolucionária para o seu tempo e ainda tem essa coisa que você falou, Augusto. Olha, eu tiro o chapéu pra essa menina, e ainda tinha a questão da cor que nunca foi impercílio pra ela. Ela veio cedo pra cá, imagina se ela fica pra vovó na terra.
Beleza: Auta, querida, eu era muito pequena quando você saiu de Macaíba.
Auta: Não me diga que você era aquela loirinha que passava cheia de cachinhos indo para a escola da rua do porto?
Beleza: Isso mesmo.
Auta: Você usava fitas azuis no cabelo, combinando com a cor dos seus olhos.
Beleza: E envelheci.
Augusto: Apresente a sua amiga, eufórica poeta. Nos dê esse prazer.
Beleza: Eu sou a Isabel Cruz, mas todos me conheciam por Beleza. O avançar da idade, me deu o agradável título de madrinha Beleza.
Augusto: Que graciosidade e encanto de pessoa.
Andrade: Um cavalheiro de marca maior. Esse Augusto não nega que já foi político. Êta cabra medonho, não é Alfredo?
Alfredo: A mancha da nossa categoria.
Auta: Me diga o que tanto você fez na terra? Onde estás repousando? Qual é o seu hotel?...
Alfredo: Calma Auta, deixe Beleza respirar.
Beleza: Fiz muitas coisas, como passar por um convento, adotar uma criança e fazer teatro.
Auta: Incrível! Sinto falta dos recitais da casa do Biscoito, as cavalgadas...que bom que você viveu tudo o que tinha direito.
Beleza: Sim. Velhinha, numa cadeira de rodas, eu ainda dirigia peças de teatro sacro e hoje repouso no hotel Coité, reservado aos artistas de Macaíba, como o mestre Joca Leiros, por exemplo.
Auta: Vamos conversar no terraço, pra você me contar tudo, querida. Temos muito o que conversar.
Alfredo: Espere Auta. Em homenagem a chegada de Beleza, recite uma poesia.
Auta: Agora não, Alfredo, por favor, esse não é o momento.
Beleza: Eu gostaria muito, minha amiga. Eu era muito menina para ir aos recitais, frequentar a casa do biscoito e nunca tive o prazer de escultá-la.
Auta: Está bem.
Augusto: Lá vem choradeira. Eu não aguento mais. Só não sei o que ela vai chorar aqui no céu.
Auta: Essa poesia é de um autor ainda vivo, li no Jornal da Terra e o título é: "Desejos de um Sonhador".
Augusto: Que evolução.
Auta: Entristecido fica meu coração
Quando sua chuva de lágrimas
Enche minhas veias de poeta
Fico querendo que sua alma
Transborde em meu ser
Enchendo de amor e felicidade
Por mais vastas que sejam,
Nossas noites de amor
Embebidas pelo mais puro aroma
Desejo mais.
Que meu coração cresça
E os sentidos transbordem de desejo
Como dois pirilampos,
Sairíamos, feito par
Juntos
Olhando a lua e suas servas
Banhar-nos-íamos de suor
Junto às árvores
Amanheceríamos deitados na relva
Contemplando o passado.
Beleza: Lindo, Auta! Bravo!
Alfredo: Um pouco apimentada para o céu, não, senhorita?
Augusto: É o progresso celestial, Mesquita. Adeus censura e viva a liberdade de expressão.
Andrade: Até me despertou para coisas adormecidas.
Gabriel: Licença, senhores.
Andrade: Eu o mato!
Augusto: Calma, homem, ele é um anjo!
Andrade: E eu, Major Andrade, que essezinho chamou de soldado raso.
Augusto: Fale logo, Gabriel e vá embora. Você foi desacatar logo quem.
Gabriel: São Benedito pede para que vocês façam um pouco de silêncio, porque já recebeu duas reclamações de vizinhos do andar inferior.
Alfredo: Só podia ser esses militares. Na terra viviam me bajulando pra conseguirem subir de nível e agora ficam botando banca, querendo ser as pregas de Pelé, era só o que me faltava. Eles querem guerra?
Andrade: Se é guerra, tá aqui um major pronto pra batalha. Soldados!
Augusto: Menos, major, menos.
Gabriel: Eu só vim dar um aviso de São Benedito.
Andrade: E quem aquele zinho pensa que é? Ele tá nos ameaçando, é, seu anjo de terceira?
Beleza: Tende piedade, Senhor.
Auta: Sinta o nível, querida.
Gabriel: Esse que o senhor discrimina é o dono do hotel. Espero que não esqueçam desse detalhe.
Augusto: E é? Que grande novidade. Ora Gabriel, todos nós sabemos onde moramos e a quem pagamos.
Gabriel: Mas, ele, não sabia.
Andrade: Mesmo assim, não deixa de ser um atrevimento muito grande esse recado que ele mandou.
Gabriel: Eu sou um empregado cumprindo ordens do superior. Não dá pra ser exclusivamente anjo, é necessário uma segunda função e aqui estou, trabalhando nesse hotel. Por isso repito para os senhores que aqui sou empregado, e como empregado obedeço ordens.
Andrade: Você é muito do babão, seu cheleléu duma figa, não passa de um baba ovo, e o pior, corrupto. Eu só queria estar na terra pra mostrar a você com quantos paus se faz uma urna, ou um altar.
Mesquita: Eles são um anjo e um santo, Andrade, e muito próximos a Deus.
Auta: Não esqueça esse detalhe.
Andrade: Me solte, não irei me trocar com esse...
Alfredo: Andrade!
Augusto: Já terminou, Gabriel?
Gabriel: Não, senhor. O dono do hotel mandou saber se vocês aceitam chá de nuvem do campo com rosquinhas de trovão requentadas ao relâmpago?
Auta: Que chique! É a primeira vez que recebemos atendimento vip. Já era tempo. E o melhor é que estamos recebendo a Isabel Cruz.
Beleza: Deve ser uma delícia. Estou adorando o atendimento desse hotel.
Augusto: Não pense em ficar.
Alfredo: Aceitamos, sim.
Andrade: Esse santo quer reza. Olhe o que estou dizendo. Vem aumento de reza no aluguel por aí. Depois não digam que eu não avisei, e olhem que eu não erro uma.
Augusto: Sei não. Acho que ele quer aprontar alguma coisa com esse espírito fraternal. Acho que o major tem razão, concorda Alfredo?
Auta: Pare de blasfemar, Augusto. Será que você não percebe que ele está oferecendo nas melhores das intenções. São Benedito é um sábio, espírito sagrado. Ele não é de brincadeira.
Augusto: Será que nem falar eu posso mais, dona Auta? E a liberdade de expressão, onde fica.
Auta: Não admito que falem mal de São Benedito ou qualquer santo que seja.
Beleza: Calma querida. Sei que és muito religiosa e não é de suportar tamanho insulto.
Andrade: Isso mesmo, Auta, defenda a cor, e vejo que sua amiga não lhe conhece de verdade.
Auta: Até tu Andrade? Admiro você, Augusto Severo, que sempre diz crer, que tem fé, fica falando besteiras, falando mal, ironizando, fazendo intrigas, jogando uns contra os outros, infernizando. Qual o seu objetivo nessa história, criatura?
Augusto: Eu? Meu deus, o senhor tá vendo que é ela que está me provocando. Será que tenho de descer de nível? E olha deus, que ela tá comparando o seu céu com a casa do tinhoso. Eu sou da paz, eu sou da luz minha querida.
Auta: Não envolva o nome de Deus em vão, Augusto.
Andrade: Estou enganado, ou vocês dois se amam.
Augusto: Por favor, Auta, procure o seu quilombo e me deixe em paz.
Beleza: Estou decepcionada. Nunca pensei que um cavalheiro pudesse tratar uma senhorita ilustre como a poeta Auta dessa maneira. Será que a cor da pele é mais importante que as qualidades dela? Pois fique sabendo senhor Augusto Severo, que essa escritora nunca foi descriminada.
Andrade: Em Macaíba tem um quilombola. Veio de lá?
Beleza: Sem palavras.
Augusto: E vai ficar muito mais decepcionada se não desaparecer com a sua amiga, porque eu, irei ficar aqui. Passei uma curta vida na terra, sendo cavalheiro, me envolvi com política, coisa que me arrependo até hoje. Esse período todo engolindo desaforos, ganância, prepotência, arrogância, calando muitas vezes em bem da harmonia social, mas hoje não, chega!
Andrade: Pra que tudo isso, Augusto? Será que existe uma câmera escondida e você, tá gravando para o horário político e não avisou a gente?
Augusto: Mas será que você não viu e ouviu, as provações? Mesmo não tendo êxito com o Pax, mas dei minha grande contribuição para a humanidade. Até hoje recebo telegrama agradecendo o meu estudo, a minha pesquisa. E tem mais, eu fui o único, cremado nos céus de Paris.
Alfredo: E é disso que você tem orgulho e se sente o papa do ar? Coitado.
Andrade: Dessa maneira você vai se tornar o protagonista e acho melhor você ir parando, porquê você não está só nesse céu.
Auta: Mas é o que ele sempre quis, tanto na terra como aqui no céu e me dêem licença que irei para o terraço conversar com minha amiga...mas antes eu digo; na terra tive uma experiência dolorosa, sofrida, mas nunca desanimei. As pessoas hoje, na terra, só realmente sabem o que eu escrevi e o que os meus amigos amados escreveram e continuam escrevendo. E eu vos digo senhores, que vivi cada momento. Me apaixonei, cantei, cavalguei, recitei e a minha cor nunca foi impecílio. A doença, o mal do século, nos tombou, mas com dignidade, unidos pela fé e agradecidos a Deus. É a Deus que devo satisfações. Passem bem.
Beleza: Licença, senhores
Alfredo: Fiquem à vontade.
Andrade: Mas, me diga, Alfredo, essa amiga de Auta teve essa importância toda na história de Macaíba pra andar fazendo tur no céu? Quem realmente é essa mulher para está entre nós?
Alfredo: Com luva de pelica, não foi Augusto? Fantástica.
Andrade: Eu fiz uma pergunta, Alfredão, me responda.
Sabiá: Seu Andrade...
Andrade: Major! Major Andrade.
Augusto: As vezes fico me questionando do porquê, eu ter vindo parar aqui. Se morri em Paris, falo fluentemente francês, os meus restos mortais, não estão em Macaíba, e o que diabo eu estou fazendo aqui nesse céu? Tem algo errado no ar.
Andrade: O ar é traiçoeiro, assim como determinados políticos.
Alfredo: Quem bebeu a água da raiz, até morto não escapa daquela cidade.
Augusto: Que carma.
Sabiá: Só pela sua ignorância, seu Andrade, não digo mais, que tem um homem querendo ver o senhor.
Alfredo: E falando de mim, Andrade?!
Augusto: Era o sujo falando do mal lavado. Estou bem acompanhado nesse céu. Até parece que chutei a cruz.
Andrade: E quem é, Sabiá, que está me procurando?
Alfredo: Um leitor ou um prestanista. Das duas, uma.
Augusto: Será que não é um coronel do apartamento dos militares procurando um major desertor.
Alfredo: Diga logo, Sabiá, quem é?
Sabiá: E já pagaram os meus atrasados pra mim dizer que é um tal de Zé Jipe?
Alfredo: Zé Jipe, aqui?
Augusto: Se o Andrade é major, porque ele mora conosco e não com os militares? E esse Zé Jipe, quem é?
Andrade: É o meu sapateiro. Mande ele entrar, Sabiá.
Zé Jipe: Já to entrando, Major Andrade.
Sabiá: Aqui agora tá igual à casa da mãe Joana, todo mundo manda.
Zé Jipe: Benza Deus, Major, agora aqui é um luxo só. Onde o senhor tava era um pardieiro, mas aqui sim, é lugar de gente descente.
Andrade: A de sempre, Zé. Manda ver.
Augusto: Que mordomia, Andrade. Esse é o céu que você pediu a Deus, não é?
Andrade: Eu e o Mesquita. Lutamos muito na terra pra merecê-lo.
Zé Jipe: Senhor Mesquita, aqui?
Alfredo: E onde você queria que eu estivesse, Zé Jipe? Agora eu arranjei pra hoje.
Ø (Voz de homem cantando samba antigo)
Andrade: Por que você veio hoje, Zé?
Zé Jipe: Tudo indica que amanhã irei a terra e pra não deixar o senhor esperando, vim logo hoje.
Alfredo: Tá uma bagunça esse céu. Não vale mais o que se paga.
Zé jipe: Com o senhor aqui, tá mesmo. E ainda chamam aqui de céu. Não quero nem imaginar o infa como será.
Augusto: Bate penalti o engraxate e o time do político... só Deus.
Alfredo: Não estou falando de você, seu metido, estou falando da música de carnaval. Antes a música era suave, serena. Hoje parece...quem será que está cantando lá fora?
Zé Jipe: É um cabra bom, carnavalesco, um amigão, tudo pra ele se transforma em samba. É o velho Prego, que tá indo comigo pra terra.
Alfredo: E como o Prego veio parar aqui em Zé?
Zé Jipe: Por que o senhor não se levanta e pergunta a ele?
Augusto: Estás perdendo o cartaz, Mesquita? Gol do engraxate.
Alfredo: Isso na terra só faltava beijar os meus pés.
Zé Jipe: Quando não se é esclarecido se faz dessas coisas. E outra, o meu serviço era engraxar sapatos, o senhor queria o quê?
Augusto: Três a zero para o engraxate e a torcida pede bis.
Alfredo: Estou besta com você, Zé Jipe.
Zé Jipe: Tudo indica que não volte mais, major Andrade.
Andrade: Irei sentir a sua falta, Zé.
Alfredo: "As pessoas na vida, não vêem seus defeitos, só suas qualidades".
Augusto: Estou estranhando você, Alfredo, andas culto demais. O que é que está acontecendo? Estudo não era o seu forte.
Alfredo: "Cada ser só olha suas qualidades, estreliza-se, deixando de notar que não é só ele que está nesse imenso céu".
Augusto: Qual é o livro que você tá decorando essas frases, Alfredo?
Alfredo: Admiro você, achar que sou um charlatão. Você chega a me agredir com esse questionamento.
Andrade: Achar, é Alfredo?
Augusto: Com essa eu vou tomar um chá, mas prometendo que irei descobrir a mágica.
Alfredo: Vá e não volte mais, seu incrédulo.
Zé Jipe: Major Andrade, a neblinada está faltando posso usar a serenada?
Alfredo: Por que você trata de maneira diferenciada eu e o Andrade, Zé Jipe?
Zé Jipe: Por que ele me trata como ser espiritual, me respeita, mas quanto ao senhor...
Alfredo: Espere, seu Zé, e quando foi que lhe tratei mal?
Augusto: Estou notando que o grande filósofo Alfredo Mesquita, está vacilando no seu palavreado. Estou de volta caro Alfredo, preferi ficar, o chá fica para outra hora.
Andrade: Me diz uma coisa, Zé, o que realmente o Prego fez pra morar no nosso céu.
Augusto: Ele enriqueceu com samba, na terra? Se foi, já vi que Macaíba tá como o diabo gosta.
Andrade: Ou deve ter subornado o Gabriel, que é o mais fácil.
Zé Jipe: Subornar com o que, major? Gente como eu e ele, entramos no céu dos macaibenses só pra fazer uns bicos. Nós viemos de terceira, não foi como vocês, em caixões bonitos, com toda mordomia que uma viagem de primeira classe garante. E vocês depois que viajam ficam recebendo homenagens. Até eu sair de lá, o mais homenageado, era o Augusto Severo.
Augusto: Por exemplo?
Zé Jipe: Tem rua, escola, praça, cidade, corrida tradicional com o nome dele. De todos, ele é o mais homenageado.
Augusto: E o que mais?
Zé Jipe: Diziam que ele era muito elegante, cabeleira cheia, bigodão, muito educado, e era inventor muito inteligente. Tem um dia no ano que os alunos vão cantar um hino em sua homenagem, na praça que tem o nome dele. Colocam flores e fazem discurso. Todo mundo no centro da cidade para para homenageá-lo.
Andrade: Estão falando de uma outra pessoa.
Augusto: Bravo! Magnífico! Sua audição está em perfeito estado para receber esta noticia, senhor Alfredo Mesquita?... Se calou? Claro, ficou sem palavras.
Alfredo: “O silencio só é irritante para quem não aprendeu a pensar, irritar-se com injurias é reconhecer que elas têm algum fundamento: desprezá-los é condená-los a serem esquecidos”. Licença.
Augusto: Vá, Alfredo Mesquita, pode ir e só espero que você encontre uma boa nuvem de chuva! Quando voltar vai ter uma surpresa!
Andrade: Calma Augusto.
Augusto: Eu descobri, Andrade! "Uma pedra atirada na multidão, tanto pode atingir o justo como o pecador", eu descobri!...
Andrade: A brincadeira que ele está fazendo com você perdeu a graça.
Augusto: É muito safado, esse Alfredo. Ele não tinha o que fazer, Andrade, combinou com o Gabriel...
Andrade: Que é outro safado.
Augusto: Para ficar recebendo frases feitas através de um mini-transmissor no ouvido.
Andrade: “O homem inteligente,exercitando, questiona sempre. O homem que não questiona, é um homem morto.”
Augusto: Até tu, Andrade?
Andrade: E ainda me chamam de louco.
Zé Jipe: Major, e esse louco aí, quem é?
Augusto: Ele não sabe quem sou? E ainda me chama de louco, eu, o grande inventor do dirigível, o PAX! Este homem que diz ser macaibense, não me conhece?
Zé Jipe: E eu tinha que saber quem era o senhor? Tás vendo major Andrade o que eu encontrei.
Augusto: Claro! Posso imaginar, vindo o senhor da terra vangloriando Augusto Severo, mas sem o conhecer. Imagine a geração que hoje cresce naquela cidade. Tenho pena do senhor... e de mim também
Andrade: Ele é o Augusto Severo, o tal do balão, Paris, fogo. Juntou?
Zé Jipe: Então, o senhor é o seu Augusto Severo? Meu Deus... me desculpe... e eu que admirava tanto esse homem.
Augusto: Admirava?
Zé Jipe: Eu sentava em frente da sua antiga casa, para trabalhar...
Andrade: Você está falando demais Zé. Falando pelos cotovelos.
Augusto: Espere, Andrade, deixe ele falar.
Andrade: Major Andrade.
Augusto: O senhor disse que ficava sentado na frente da minha antiga casa?
Zé Jipe: Que hoje, nem casa é mais.
Augusto: Meu senhor, eu deixei filhos, família, conterrâneos para tomarem conta dos meus bens. Diga-me, em qual janela o senhor ficava para trabalhar?
Zé Jipe: Que janela?
Augusto: Que janela, o senhor me pergunta? Céus! O caro engraxate era sego na terra? Será que desenvolvias o seu ofício sem ver o que estavas fazendo? Uma casa tem porta e janela e assim como inúmeras casas, e a que eu morava tinha mais de uma janela. Pois bem. Refazendo a pergunta...
Zé Jipe: Não se dê ao trabalho por que eu já entendi. Agora Lá tá tudo diferente, tem até porta de vidro.
Augusto: Ah! Você que dizer que lá agora é um museu onde guarda a minha história. Não é isso?
Zé Jipe: Não senhor. Eu num to dizendo isso,não. Lá tem porta de vidro porquê lá era um comércio e até a hora que eu vinha embora, iam transformar em um banco, o primeiro banco da cidade. É o progresso chegando em Macaíba.
Augusto: Não pode ser, eu protesto!
Andrade: Você protesta o que Augusto? Estás morto homem de Deus.
Augusto: A minha memória, o que fizeram com o meu trabalho, com a minha história? Que gratidão eles tiveram para comigo, Andrade? De que vale, estátuas, fogos de artifícios, oradores com seus belos discursos, se o lugar onde morei, onde estavam as minhas coisas, eles destruíram! Que patriotas!
Andrade: De que vale se lamentar, esses gritos sem necessidade, se ninguém além de nós, pode lhe ouvir, homem de Deus. O povo da cidade tem tanta culpa quanto a sua família que vendeu sem olhar para trás.
Zé Jipe: O major tem razão, senhor Augusto.
Andrade: Se com você, o homem do balão fizeram isso, imagine comigo. Não quero nem imaginar. Era lindo o meu solar. Capela ao lado, cercado por um coqueiral de dar inveja.
Augusto: Não suporto saber que tudo o que eu tinha de mais puro, a minha vida, dediquei a aquela cidade, e eles me renegaram. Eu tenho certeza que fiz para eles o que devia...
Alfredo: E eles o que tinham direito.Acalme-se Augusto Severo, precursor da aviação. Tenho certeza que em algum lugar você é reverenciado. Se não for em Macaíba, mas o Brasil é imenso, e melhor ainda,quem sabe Paris, quem sabe.
Zé Jipe: Eu queria saber...
Andrade: Calado. É melhor, quando se trata do céu dos macaibenses, Zé Jipe. Você já falou demais.
Augusto: E você, Alfredo Mesquita, cruel como sempre, nem aqui no céu você muda.Irónico, sarcástico. Deleitando o prazer na dor dos outros, com maestria. Que os seus não sejam herdeiros .
Alfredo: "Os humanos têm o coração como o estômago".
Andrade: E "A morte é o silencio da vida".
Augusto: Até você, Andrade?
Andrade: Posso vender pra você, se quiser.
Augusto: De você e do Alfredo, espero qualquer coisa. Eu só queria saber qual de vocês dois apagou a minha história em Macaíba. Essa cidade era para ter o meu nome, vestir a minha história, cantar a minha luta, narrar a minha vitória. Decolei, flutuei, subi. O mundo sabe o meu feito, a história do pax e os meus, os herdeiros da glória, do passado, renegam a sua herança. Céus, será que educar, hoje, lá na terra é esquecer?
Alfredo: Egocentrismo, meu caro?
Augusto: Não, Alfredo, não sou egocêntrico. Só gostaria que a minha pesquisa tivesse servido de exemplo para a juventude. Céus, o que é dos jovens de Macaíba, hoje?
Alfredo: Em 41 eu era prefeito e inaugurei um obelisco no centro da cidade com sua cara.
Andrade: De formato futurista. Lembra um foguete. Num sei pra que tudo aquilo.
Augusto: Ora, Alfredo, não me chame de conformista.
Andrade: Uma marmota.
Alfredo: Mas você é muito mal agradecido. Queria eu ter poder só pra mostrar a besteira que vocês inventores fizeram criando o avião. Essa cambada.
Andrade: E vence, Alfredo Mesquita, no segundo tempo com uma jogada curta e rasteira.
Zé Jipe: Por falar em rasteira... O major já sabe do escândalo do tesouro da associação dos santos?...dizem que foi o maior roubo da história sagrada, era oração e pedidos para tudo o que era lado, prejuízo incalculável. Vão abrir uma CPI.
Alfredo: Até aqui no céu?
Augusto: E por que está espantado, Alfredo? Tá com medo? O que você andou fazendo de tão grave na terra, ou aqui no céu, que você ficou tão assustado?
Zé Jipe: Terminei, Major Andrade.
Andrade: Muito bem, Zé. Pegue o dinheiro com o Gabriel e vá com Deus.
Zé Jipe: Aqui está, Major Andrade, todas as moedas que o senhor me pagou.
Andrade: O que significa isso, Zé Jipe?
Augusto: Ele tá devolvendo dinheiro? Tem algo de muito errado acontecendo.
Zé Jipe: O céu que eu moro não precisa se pagar, mas esse céu que o senhor mora, sim, e o major precisa muito mais do que eu. Até outro dia, se esse dia existir.
Andrade: Vocês ouviram?
Alfredo: Se nós estivéssemos em um palco representando e a história terminasse agora, seria esse cabrinha, que saiu pela porta principal, o grande herói.
Andrade: Fui dar muita confiança, olha no que deu. E agora?
Sabiá: To de olho! To vendo dinheiro nevado ou é miragem?
Augusto: Como uma teia de aranha, as palavras se tecem, formando novas orações, rumos complexos, e como uma aranha, decodificarei fio a fio, nessa complexa oração.
Sabiá: Num entendi nada que o senhor falou, seu Augusto, mas o que entendi e vi foi o dinheiro na mão do seu Andrade.
Andrade: Deixe de ser oiuda, Sabiá, e vá procurar o que fazer.
Alfredo: Vamos mudar de assunto que é o melhor que fazemos.
Sabiá: Mudar de assunto é? Vocês são tudo farinha do mesmo saco, comem na mesma panela, mas pra cima de Sabiá três côcos, não. Nós vai falar de dinheiro, sim senhor, é o meu dinheiro que desaparece sem eu pegar. Vocês podem enganar a qualquer uma, até a princesa Isabel, que assinou sem querer. Ela me disse tudo na loja do prédio de nuveniência, mas essa magrela, não. E aí, vamos falar ou não?
Augusto: Isso mesmo, Sabiá, vamos falar de todas as falcatruas e maracutaias que eles fizeram na terra.
Sabiá: Me conta tudo seu Gustinho.
Alfredo: Vamos mudar de assunto, senhor inventor queimado.Chega de intervenções na minha vida ou na vida de quem quer que seja que esteja nesse recinto! Pra cozinha, Sabiá, agora!.. Estamos aqui nessa fase para uma auto avaliação, uma pré purificação,lavar a nossa alma, mas vejam o que estamos fazendo, as nossas ações, o pior da palavra, ação, pensamento. O que estamos fazendo só piora a nossa situação. Onde queremos chegar?
Alfredo: É uma releitura do ato de contrição,Alfredo?
Andrade: Vai começar a baixaria.
Gabriel: Senhores!
Andrade: Não falei. Ô boca bendita.
Alfredo: se for o chá,não aceitamos! Um bando de marmanjos tomando chá, Só aqui nesse céu, mesmo.
Andrade: Suborno, também não!
Augusto: Olha o rabo preso, senhores. Respeito é bom.
Anjo: O encarregado do embarque e desembarque no céu mandou avisar que escolheu dois de vocês para fazer uma visitinha a terra.
Andrade: Seja bem aventurado! Quando partiremos?
Gabriel: Sinto desanimá-lo, Major Andrade, não é dessa vez.
Andrade: Por que não? Você tá brincando comigo.Já mandei mais de cinco requerimentos. Será que erraram o endereço? Quero uma revisão de endereço.
Alfredo: Isso é casca grossa, Andrade. Depois que ele diz não, é não e ponto final. E logo você que afrontou ele. Parece que não aprendeu na terra qual a hora de recuar, calar, dar o goto seco, fica na espreita para uma nova investida. Relaxe e aproveite essa mordomia, meu caro.
Andrade: Mas já faz muito tempo que mandei o pedido.
Gabriel: Os dois já foram escolhidos e nada depende de mim, senhor.
Augusto: Quem afinal, irá dessa vez?
Gabriel: Auta de Souza...
Augusto: Já vai tarde. Não era nem pra ela se hospedar aqui. Eles deveriam ter hospedado ela com escritores, e não conosco.
Alfredo: O que é isso, Augusto?
Augusto: Alfredo, você e Andrade são novos por aqui e não sabem o que eu, Alberto Maranhão e o Tavares de Lira sofremos nas mãos dela. Precisa-se conviver com a pessoa pra ver como ela realmente é.
Andrade: Ela nem está aqui, Gabriel, deixe que eu vá!
Augusto: Arrumadinho não, Major.
Gabriel: O senhor Augusto está insinuando o que?
Augusto: Você sabe muito bem o que eu quis dizer. Não se faça de desentendido, Gabriel.
Gabriel: Você tem medo de altura, Augusto?
Augusto: Eu? Você está é louco. Não sabe que o ar é a minha casa e a altura foi o meu objetivo. Voar, subir, liberdade.
Gabriel: Então se segure para não cair.
Alfredo: Isso é uma ameaça, Gabriel?
Gabriel: Quem sou eu para ameaçar alguém? Só sirvo ao Pai todo poderoso, o criador do céu e ele nesse momento pode estar traçando nossos destinos, mudando situações, tornando qualquer um em protagonista ou figurante.
Andrade: E esse louco não está vendo que eu não quero ficar mais aqui? Que eu quero voltar, ver o meu povo, as minhas terras, o meu solar, ver tudo.
Gabriel: Andrade, você na terra não existe. História,memória,nada.
Augusto: Gabriel! !
Alfredo: Deixa, Augusto. Já era hora.
Gabriel: Hoje ninguém mais sabe quem foi você. Até uma escola que tinha você como patrono, demoliram e tchau. Bem aventurados os que nascem em Macaíba,por que nela, da sua história só ficou a. . .
Alfredo: Chega Gabriel!
Andrade: Estou só... a casa caiu., quem sou eu?
Gabriel: Você agora está com os seus, nesse belo apartamento desse hotel e nessa mordomia. A casa caiu porque a escola política que vocês criaram na terra implodiu com sua própria história e você é aqui o que realmente você foi lá na terra, assim como todos os outros que vem para esse céu. Você vai embarcar, Augusto Severo.
Augusto: Não pode ser. Protesto!
Andrade: Me leve... ou não.
Augusto: Não vou a terra e pronto. Será que esse palhaço que nos colocou nessa situação não sabe o que é democracia, liberdade, o direito de ir e vir? Em que século esse deus escreveu essa história, Gabriel? Tá decidido. Não vou e pronto, ninguém irá me obrigar. Só porque ele tá com a caneta na mão se sente no direito de traçar o nosso destino, decidir, escrever as entre linhas, nos jogar fora do trem. Isso tá errado e irei mobilizar as classes celestiais para revisarem a constituição desse céu. É isso mesmo. Se preciso for, moverei céus e nuvens, mas vou buscar o direito de escolha, o direito de ficar aqui.
Andrade: Eita cabrinha porreta. É isso aí, Augusto Severo, brigue para ficar que eu brigo para ir.
Gabriel: Não complique, Augusto.
Augusto: Não complique? É o que você tem pra me dizer? Você não percebe que sou um revoltado, que não quero mais ir a terra? Chega, tá decidido!..ir a terra, especificamente a Macaíba, ninguém merece. Vou ficar tão revoltado com o que fizeram com a história de Macaíba, que vocês vão se arrepender por ter me enviado. Escreva o que estou dizendo.
Alfredo: É isso mesmo, Augusto Severo Mas você sabe que depois que ele escreve, acabou-se, mesmo se arrependendo. Então, homem se você sabe que é assim, aceita calado e sai logo da história celestial. Você não foi e nem será o protagonista e ainda é um personagem que nasce antes do final, percebe?
Augusto: Tenho que me conformar? Eu não admito. Farei qualquer coisa pra conseguir os meus objetivos. Você só diz isso Alfredo, porque tudo o que se constroi hoje, em Macaíba, tem o seu nome, até os meninos que nascem. O que realmente você fez, pra essa cidade te glorificar tanto. Manda ele, anjo Gabriel, tenho certeza que na sua chegada as fanfarras das forças armadas estarão todas perfiladas e tocando alegremente. As escolas vão parar e todos alunos com bandeirinhas nas mãos, perfilados, cantando o hino em sua homenagem, Alfredo, e todos os 13 vereadores com um projeto de lei aprovado para mudar o nome da cidade, de Macaíba para Alfredão.

Andrade: Me leva no lugar dele,que deus nem vai perceber.
Augusto: Por favor, Anjo Gabriel, se não levar o Alfredo, leva o Andrade no meu lugar...
Andrade: Pronto, tudo resolvido em casa mesmo. Até um outro encontro Augusto e muito obrigado.
Gabriel: Uma besteira, aqui e outra ali, eu ainda resolvo, mas uma mudança como essa seria uma grave desobediência. Impossível.
Augusto: Anjo Gabriel, por tudo o que é mais sagrado, eu te imploro, não me deixe ir.
Andrade: Engraçado Augusto, enquanto eu quero ir, você não quer, porquê?
Augusto: Eu iria para qualquer parte da terra com maior prazer, mas o masoquista que escreveu esta história está me devolvendo a Macaíba, terra boa, mas de filhos ingratos, onde a política partidária corrói os homens, destrói sua história cultural e imortaliza, homens sem méritos, e vocês sabem, muito bem, que estou coberto de razão... por favor, anjo Gabriel!
Gabriel: Augusto, "A árvore cortada reverdesse; a lua minguante dá lugar à lua nova..."
Augusto: Eu já vi que transmissor é o que não falta e o seu, Gabriel, é coisa de 1° mundo.
Gabriel: O meu?
Augusto: Não se faça de desentendido. Acredito que seja bem melhor eu ir embora desse céu. Olhando agora,no geral, eu me pergunto: que céu é esse?
Alfredo: Muito bem, Augusto, encare a vida com naturalidade. Todo homem questionador, é um homem ativamente inteligente, e você é esse diferencial.
Augusto: Vocês realmente compraram os transmissores. Andrade e Alfredo, até breve, amigos.
Andrade: E nós, anjo? Vamos ficar vendo aviões? Sabiá em greve. Isso aqui vai ficar uma pindaiba.
Gabriel: Vocês terão que esperar. Quem virá substituir o Augusto, será o Almir Freire. Passem bem.
Andrade: Com quem iremos dividir o teto?
Augusto: Calma, Andrade.
Andrade: Calma o que, Alfredo. Eu não vou ficar com um Freire no mesmo espaço. Eu quero sair daqui! Gabriel!!
Sabiá: Alguém me chamou? É engano, ou eu ouvir que querem me pagar?
Andrade: Me ajude, sabiá, eu quero ir pra terra.
Sabiá: O senhor quer ir de avião, ou quer cair direto de para-quedas? O senhor é quem escolhe.
Alfredo: Não adianta gritar, Andrade, ninguém além de nós irá te escutar.
Sabiá: Que goela boa, Major, parece o senhor em campanha.
Alfredo: Fique calmo, Andrade.
Andrade: É fácil aconselhar paciência, muito fácil.
Sabiá: Mais do que eu tenho. Sou paciente até demais rapazes. Tô só cubando. Tão desaparecendo na calada, mas nego aqui tem que me pagar, o novo e o atrasado. Quero o que é meu e ninguém sai dessa sala sem me pagar.
Alfredo: Sorte nossa não ter ido pra o inferno, comendo o pão que o diabo amassou tendo, que trabalhar pra se manter. Nós temos mais é que agradecer, e muito.
Andrade: Eu sei que você tem razão, mas não dava pra levar o Almir pra outro andar.
Alfredo: Andrade!
Andrade: O que há de se fazer?
Alfredo: E onde fica o perdão? Esse deus que escreveu esse céu sabe o que faz, espero. Vamos atualizar o papo, revelar segredos políticos e dar boas rizadas. Nada de brigas, tudo na paz e com certeza, vai ser uma grande farra. Deixe de ser turrão, homem.
Sabiá: Tão batendo na porta e eu não vou abrir. Ainda estou de greve.
Andrade: Fala do mal, prepara o pau.
Alfredo: O que tá esperando, mulher? Vá atender.
Sabiá: Entre!!!
Gabriel: O que é isso, Sabiá? Irei reclamar ao seu sindicato. Se componha!
Sabiá: Vareite. Acho melhor ir cuidar do meu serviço...Um mensageiro do nosso deus que entregou esse papelzinho pra o senhor, doutor anjo Gabriel. Vou indo pra a copa, mas se precisar de mim é só gritar que eu venho numa perna só.
Alfredo: O que é dessa vez, Gabriel?
Andrade: Eu vou pra terra?
Gabriel: O nosso deus é bom, mas nem tanto.
Alfredo: O que quer dizer com isso, Gabriel? Está ,codificando algo que nós não estamos entendendo.
Gabriel: O todo poderoso arranjou duas vagas com São Benedito, na cobertura do hotel e o Almir ficará aqui junto a outros nomes de Macaíba que estão para serem transferidos!
Andrade: Que maravilha! E viva deus, que chamarei a partir de hoje de meu comandante.
Alfredo: Isso é ótimo! Uma cobertura. Tô quase lá.
Gabriel: O que você quer dizer com isso,Alfredo Mesquita?...tô de olho.
Andrade: Muito obrigado, Anjo!
Gabriel: Sou apenas mensageiro, agradeça ao nosso deus. Agora, se molharem a minha mão, eu posso trocar por uma cobertura de frente para o mar celestial, onde o sol começa a e as estrelas se acalentam nas nuvens, brincando com a lua. O que dizem?
Alfredo: Eu vejo a hora você cobrar os direitos autorais desse texto.
Gabriel: Fazer o que. Vamos, senhores.
Alfredo: Assim, agora...
Andrade: E nossas malas?
Andrade: Vocês estão no céu e tudo já foi providenciado.
Sabiá: Ei! E eu, vou ficar aqui ao léu, jogada no esquecimento, igual a nada? E a minha dívida? Êpa! Depois que eu rodo num pé só, num tem quem me junte. E aí?
Gabriel: Irás com eles, serás hospede e não mais serviçal.
Andrade: Tava bom demais, pra ser verdade.
Gabriel: Agora, vão com as bênçãos do nosso deus e o poder da sua caneta, antes que ele se arrependa.
Sabiá: Andem, bando de molengas. E eu vou logo dizendo que não quero desordem na minha suite. Quero duas empregadas, um mordomo e uma sala só pra os chás. Tudo o que eu sonhei na vida. Na verdade, a vida foi muito cruel comigo, terminei num abrigo, tendo como companhia vários gatos e pedia, pra poder me sustentar e a cidade me infernizando. Chega! Subiu. Agora é só festa. Quem diria. "Sabiá cadê o gato" ladeada por Alfredo e Andrade. Um cheiro no ôio deus!
Gabriel: Vai ficar Sabiá?
Sabiá: Jamais.
Gabriel: Público presente, o dono do hotel, São Benedito, vai mandar reformar este andar, que chamamos de salão de espera, que concidentemente é este que vocês estão ocupando. Espero que entendam, mas não chegou a vez de vocês, ainda, por isso, precisamos desocupá-lo. Se quiserem um céu interessante e luxuoso como este é só falar comigo antes de se apresentarem a São Pedro. Bem naquele momento do último suspiro, lembrem-se de mim, chame o meu nome;Gabriel, que o restante eu resolvo. Mesmo que não sejam filhos ilustres, porque o importante é ser espírito empreendedor e ter dinheiro celestial, e todo calouro, aqui nesse céu, vem cheio de orações, e quanto ao histórico eu crio. Eu quero ter o meu próprio negócio e com o salário que ganho não dá pra nada. Quem sabe, quando vocês chegarem aqui, eu já tenha o meu próprio hotel. Espero que sim. Na saída, dois querubins estarão entregando o meu cartão e não esqueçam que estarei aqui, esperando vocês. Boa noite celestial.


Juscio Marcelino
Macaíba /RN, 13 de junho de 1982.




Citações

-Moderna Enciclopédia de pesquisar, consultar e aprender.
Departamento Editorial do Novo Brasil. Editora Ltda. São Paulo /SP, 1982
- MESQUITA, Valério Alfredo – Macaíba de “seu” Mesquita-Natal; edições Clima, 1982.
- Foi de fundamental importância as tardes de conversa com Isabel Cruz (Madrinha Beleza), que muito me contou sobre Macaíba, a apaixonante cidade que transpirava arte. O seu contato com Auta de Souza e a história do teatro macaibense. Ela era encantadora.